A DEMOCRACIA MORRE NA ESCURIDÃO

Tarcísio e Haddad nacionalizam debate na Globo ao tratar de salário mínimo e Jefferson

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No último debate antes da votação que definirá o próximo governador do estado de São Paulo, o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) fizeram uma espécie de prévia do embate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), marcado para hoje, também na TV Globo.

Os dois postulantes ao Palácio dos Bandeirantes trouxeram à tona temas recentes do debate nacional, como a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson, a correção do salário mínimo, o empréstimo consignado do Auxílio Brasil e o mistério em torno do eventual indicado de Lula para o ministério da Economia em caso de vitória. Apesar de a nacionalização ter ocupado boa parte do debate, Tarcísio e Haddad também discutiram propostas para áreas como segurança pública e transporte no estado.

Os dois ainda trocaram acusações sobre legado para São Paulo: o bolsonarista lembrando a rejeição de Haddad em seu período como prefeito da capital, e o petista destacando a falta de investimento federal no estado nos últimos anos. No último bloco do debate, Haddad citou a polêmica envolvendo um tiroteio durante uma agenda de Tarcísio na favela de Paraisópolis, tema que tem desgastado o adversário.

Tarcísio e Haddad aparecem tecnicamente empatados na última pesquisa Ipec, divulgada na terça-feira. O ex-ministro bolsonarista tem 46% das intenções de voto, enquanto Haddad soma 43%.

Fake news

A primeira fala de Tarcísio no debate foi inteiramente dedicada a rebater acusações da campanha de Haddad e sair em defesa do presidente Jair Bolsonaro (PL), seu fiador político e candidato à Presidência. O postulante disse que está sendo “bombardeado” por fake news da equipe do petista.

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Ao longo de cinco minutos, o candidato do Republicanos afirmou que só irá privatizar a Sabesp se a conta de luz não aumentar e negou que Bolsonaro vai acabar com o 13º, colocar fim ao Auxílio Brasil ou deixar de corrigir as aposentadorias pela inflação.

Nacionalização

Haddad apostou na nacionalização do debate e na estratégia de colar Tarcísio a Bolsonaro. A crise de oxigênio em Manaus na pandemia da Covid-19 foi um dos temas explorados pelo petista, assim como o veto ao reajuste da merenda escolar e o crédito consignado atrelado ao Auxílio Brasil:

— Vocês estão fazendo um consignado para arrancar o couro do beneficiário do Auxílio Brasil — disse Haddad, que prometeu empréstimos a famílias de baixa renda e comerciantes a juros baixos.

Em resposta, Tarcísio defendeu a criação do Auxílio Brasil, que ressaltou ter valor maior do que o Bolsa Família, e também citou o perdão da dívida do Fies e a criação do Pix. Mais tarde, disse que o petista tem fixação no governo federal.

— Acho que você deveria disputar a Presidência de novo. Já perdeu uma vez para o presidente Bolsonaro.

Legado para São Paulo

O ex-ministro acusou Haddad de recolher cobertores da população de rua por “estética” e disse que o petista não conseguiu cumprir promessas de campanha quando esteve à frente do Executivo Municipal:

— É muita promessa, mas quando você esteve com a mão na massa, não fez. Por quê? Faltou o quê? Criatividade? — afirmou Tarcísio, que ainda chamou Haddad de “pior prefeito da História”.

O petista, por sua vez, disse que Tarcísio asfaltou apenas 18 quilômetros de rodovia no estado.

— Você não destinou nada para a infraestrutura do estado. Não fez um quilômetro de ferrovia para passageiro. Não botou um centavo para o metrô e disse que o governo federal coloca dinheiro em São Paulo. Não colocado nada — afirmou Haddad.

Paraisópolis

Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, a campanha do ex-ministro pediu para que um cinegrafista apagasse as imagens de uma troca de tiros que resultou na morte de uma pessoa na favela de Paraisópolis, na semana passada. Haddad disse que não se destrói provas, mas se entrega para autoridades policiais.

O candidato do Republicanos acusou o petista de “sensacionalismo barato”. Disse que levou o cinegrafista para seu escritório e que a exclusão do vídeo teria sido pedida por preocupação.

— Lá tinha a equipe de produção, de comunicação e outros profissionais. A campanha vai acabar, mas a vida das pessoas segue. A preocupação foi com a segurança.

Tom

Haddad adotou um tom mais incisivo contra Tarcísio. O petista perguntou ao adversário em “qual planeta” ele vive, disse que o mundo dele e de Bolsonaro “não existe nem em São Paulo e nem no Brasil” e acusou o adversário de não conhecer o estado. Já Tarcísio evitou se estender nos confrontos e adotou um tom mais propositivo.

Secretariado

Ao citar o fato de Lula não ter anunciado quem será seu ministro da Economia, Tarcísio perguntou a Haddad qual seria o perfil de um eventual secretariado e questionou se Jilmar Tatto estaria à frente da pasta de Transportes (ele ocupou o posto na prefeitura na gestão petista). Haddad lembrou que Tarcísio já está discutindo nomes de possíveis secretários mesmo sem ter sido eleito e falou que a postura é um “desrespeito com o eleitor”. Ao final, Haddad disse que o ministro da Economia de Lula “não será o Guedes”.

— Ninguém mais cruel com os pobres do que o (Paulo) Guedes — afirmou Haddad, acrescentando que o ministro estuda desvincular o reajuste do salário mínimo e da aposentadoria da inflação.

Forasteiro

Haddad voltou a ironizar o fato de Tarcísio não ser nascido em São Paulo.

— Merenda agora é bolacha. Ou biscoito, como vocês gostam de dizer — disse Haddad, que em vários momentos acusou Tarcísio de não conhecer São Paulo. — Se você não for eleito, vai voltar para casa. Você não tem raízes aqui.

Transportes

Ao responder a uma fala em que Tarcísio afirmou que vai implementar o Bilhete Único Metropolitano, proposta feita por Haddad, o petista lembrou que foi quem ajudou a criar o Bilhete Único na gestão de Marta Suplicy (2000-2004).

— Você conhece o transporte da madrugada? Foi feito por mim. Você conhece o Bilhete Único, eu ajudei a criar. Agora é a favor do Bilhete Único Metropolitano — disse.

Tarcísio rebateu dizendo que implementará um projeto de São Paulo a Santos por meio de ferrovia.

— Vamos fazer a ligação São Paulo-Sorocaba e a ligação São Paulo-Santos aproveitando a linha do funicular que está hoje abandonada e que tem potencial para fazer o transporte de passageiros da Baixada Santista — disse.

Cracolândia

Tarcísio disse que sua solução para acabar com a cracolândia envolve a aliança de políticas públicas e chamou o Braços Abertos, programa que Haddad implantou na prefeitura, de “bolsa crack”:

— Procura no Google, “bolsa crack”, que foi o que resultou o seu programa de combate à cracolândia. Você deu dinheiro e incentivou as pessoas a consumirem mais drogas.

Haddad defendeu o Braços Abertos, que oferecia teto, trabalho e tratamento para os dependentes químicos, para o âmbito estadual.

Por Bianca Gomes 

(Colaboraram Ivan Martínez-Vargas, Victória Cócolo e André Duchiade)

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